pé de laranja

Terça-feira, Janeiro 17, 2006

O ano novo já começou há quase um mês e a passagem por marrocos parece-me distante demais.
O azul da medina, inexistente nos olhos dos seus habitantes, transborda nas minhas recordações, assim como os cheiros, o frio e a azáfama dos meus companheiros de viagem.
A hena já não vive desenhada na minha mão, tudo passa, pelo menos temporalmente, cinco dias são cinco dias e os que estive em marrocos fazem parte do passado. Passado esse que através das fotografias se sabe real, e que eu saboreio.

FELIZ ANO NOVO

Sexta-feira, Dezembro 23, 2005

Lembras-te? Lembram-se?

Estes textos já têm algum tempo, nunca os postei e nem sei bem porquê. Esta noite, já deitada, lembrei-me deles e decidi publica-los, faz por estas alturas um ano que os escrevi.
Neste natal como em muitos outros as coisas dividem-se, mas muito mal. Uns terão a solidão por companhia, a fome, e o desespero, outros terão as borboletas na barriga que anunciam a chegada de uma paixão ou até mesmo a do pai natal.
Mais uma vez o natal assola as consciências dos que deixam, traz saudade a muitos, tédio a outros. A mim traz-me um pouco de tudo e infelizmente não me traz o que mais queria…

Um Feliz Natal para todos!

Acorda tarde, como sempre, o sol já nasceu e entra sem timidez pelas persianas mal fechadas.
Avança descalça até à varanda, o chão gelado chega à garganta de onde sai o vapor, que lhe lembra o fumo de longos cigarros. Os aviões cruzam o céu, desenham estradas de luz onde ninguém passa, e ela sonha.
Será que hoje o vou encontrar? Será que também hoje o seu perfume vai entrar na minha mente e confundir os meus sentidos, os meus sentimentos?
Agora já a água corre freneticamente empurrando a espuma para o ralo, a ideia de limpeza está presente, mas ela continua a sentir a alma suja.
Entra no edifício e ouve assobiar. O ritmo cardíaco aumenta, a respiração torna-se ofegante e as faces coram. Aquele assobio, ela conhece-o bem. É ele! O que há-de fazer? Fingir que não o vê? Ou subir as escadas a correr e ir para a casa de banho preparar-se para o encontrar, sem perceber que nestas coisas do amor tudo é improviso, porque deixamos de comandar o nosso corpo e a nossa mente, e numa forma alada dirigimo-nos onde nos leva o coração.
Mais tarde, conta os minutos numa ansiedade asmática, até ao momento de realmente estar com ele. No céu, os pássaros aglomeram-se, e de longe parecem enxames de moscas, não fosse o seu piar e seriam realmente confundidos. Ambos chegaram à hora combinada, ela cinco passos mais atrás, segue-o com o olhar e flutua. O sol aquece o seu coração, que naquele momento parece arder entusiasticamente, e alimentar labaredas que se exteriorizam através do brilho no seu olhar.
Conversam. Ela conversa ainda mais adiando o silêncio que antecede o toque, o toque das mãos dele na sua face, na sua barriga…os seus braços à sua volta e ela treme.
Agora sente a excitação de mil borboletas a esvoaçar no seu interior e ao seu redor. Sorriem…
O sol põe-se e o frio chega. Mas ela não tem medo, pois pelas costas cai-lhe um manto feito de carne humana, que lhe aquece o corpo por causa do sangue que pulsa, e lhe aquece o coração, pelo gesto carinhoso que representa.
Já é tarde, quando estão juntos a noite teima em chegar mais cedo e traz a angústia da despedida. Adiam-na o mais possível… A música soa a silêncio. Olham-se, tocam-se, e com os lábios juntos e já saudosos dizem até amanhã.

A brisa arrefece-lhe as faces ao mesmo tempo que lhes dá uma cor rosa. Olha mais uma vez para o relógio e constata o atraso. Porque se havia de atrasar logo hoje?!
O choro de um bebé fá-la desviar o olhar. Há quanto tempo não vê os filhos, ou os netos. Há quanto tempo não se vê, não se reconhece…
Os sorrisos abandonaram-na, os abraços não os sente e a rotina instaurou-se.
O sol continua a nascer e a deslumbrar, quem quiser ver, o céu de cores quentes. Já não sente o seu calor, apenas as noites frias numa cama solitária.
Um homem apressado empurra-a com força mas nem a vê, nem por um momento parou para a olhar e se desculpar.
Pensa na casa por limpar há semanas. A gordura no fogão, o pó nos móveis que lembra cinzas de cadáveres outrora animados e o cheiro a vazio e desespero – antigamente as amigas gabavam-na constantemente por ter a casa num brinco. O que irá cozinhar para o jantar? Desde que está só que a sua alimentação mudou. A sopa e os peitos de frango frito são uma constante na sua ementa.
Na verdade nunca tem vontade de voltar para casa, aquela casa vazia, tão fria, mais que a brisa da manhã que lhe continua a gelar as faces. Hoje isso não irá fazer diferença.
Do altifalante sai uma voz que parece saída da televisão e que anuncia a chegada do comboio. Pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra… A correria cada vez é maior, a respiração mais ofegante e a brisa parece mais gelada, o sol continua a brilhar cada vez com mais intensidade, pintando o céu como se este fosse uma tela.
O som estrondoso do apito, gritando para que se desvie, é cada vez mais forte e frequente. Mantém-se firme e assume a sua escolha serenamente. Não, pela cabeça não lhe passa toda a vida em forma de filme.
Pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra…u…u….
Um grito de pânico ecoa na estação…
O sol atinge na sua plenitude o céu e a brisa foi-se.

Domingo, Dezembro 18, 2005

Acordou cedo. A excitação de estar num novo país não a deixou dormir mais. Ligou o rádio onde tocava uma alegre canção francesa e foi para o duche.
Vestiu-se. Uma saia bordeaux e uma blusa castanha foram a sua escolha para acompanhar os seus novos sapatos franceses.
Foi ao pão. Barrou as baguetes com manteiga, que se derreteu com a recente lembrança do forno.
Saiu à rua pronta a conhecer a sua nova cidade. Enquanto se passeava pela rua sorria. Dois pintores, atarefados com uma casa, assobiaram-lhe, tu est três jolie – disseram. Ela corou.
Quando deu por si estava no bosque. O bois de Bologne aparecia-lhe à frente como uma lufada de ar fresco. Pais e filhos jogavam à bola, cães eram passeados, namorados trocavam carícias… Olhou para o relógio, estava atrasada. Correu para o metro e passados alguns minutos entrava no café. Olhou em redor e reconheceu-o. Os seus cabelos grisalhos, os seus ombros bem definidos pela magreza que lhe é característica.
Adivinha? – surpreendeu-o ela tapando-lhe os olhos. Ele vira-se, o seu olhar brilhante é imediatamente preenchido pelo objecto da sua paixão.
Ela tinha vindo, tinha arriscado. Naquele café, numa qualquer esquina em Paris, iniciavam agora uma nova fase nas suas vidas.

Sábado, Dezembro 17, 2005

ciclo

Tenho na alma sede de ti.
Saudade da troca de olhares entre os nossos corações, quando eu tremia e corava, e tu sorrias.
Partes cada vez mais, e não para longe. A tua viagem resume-se ao teu interior, lugar que me é interdito, e que se audazmente tento visitar, tu me afugentas com duas palavras mais duras.
Os segredos do amor…sim do amor, não os sei! Mas e por ele que ainda te quero, apesar de as vezes olhar incrédula um futuro a dois..nós dois.
Mas inesperadamente tu regressas, sais de ti, vens para mim. E eu só penso no teu abraço apertado que afasta o frio da solidão a dois. Ai sim, somos um só.
Quando precisares de partir de novo, leva-me contigo ou então, não vás.

coração anónimo

Quarta-feira, Novembro 02, 2005

Parabens Gina


Hoje já não é o teu dia de aniversário. E fiquei a pensar se haveria de te felicitar um dia depois. Cheguei à conclusão que sim, que faz todo o sentido. Hoje, dou-te os parabéns por mais um ano e um dia de vida. Muitos Parabéns Gina!
Gosto muito deste quadro do Salvador Dali, o tempo...
Acho que és das pessoas, que conheço, que melhor o aproveita. Assim, desejo-te muita felicidade, metas alcançadas, mas também muito cinema, exposições, concertos, peças de teatro, leitura...sei que gostas!
beijo especial

pão por Deus

Ontem acordei com a campainha e umas vozes descoordenadas que se queriam fazer ouvir. Pão por Deus, pão por Deus, saco cheio e vão com Deus! Tão bem que eu me lembro desta frase, do seu cheiro a castanhas cozidas e do gosto doce dos beijinhos.
Que saudades, que nostalgia. Também eu gostava de ir de porta em porta, reclamando como criança, o meu direito aos doces que me esperavam em cada morada. A roupa nova que a mãe disponha arrumadinha na cama, para quando saísse do banho vestir, as insónias da noite anterior, e o receio de estar a chover de tal forma que me proibisse de iniciar a demanda pela freguesia com o saquinho a tira colo.
Hoje, espero em casa pelos meninos, que com os olhos a brilhar de entusiasmo e alegria, me abrem o saco pedindo pão por Deus.

Quinta-feira, Outubro 20, 2005

Desabafo

Pergunta de ordem: Quer ser jornalista?
E tudo estremece pelo vazio da resposta. Este ano os professores, e muito acertadamente, espicaçam-nos por hábito, e alguns de nós (nomeadamente eu) entramos em pânico pela novidade, para saberem afinal quais são os nossos "projectos futuros". O fim parece agora muito mais perto, e não me refiro ao fim do curso, mas sim, ao fim do tempo que parecemos ter para decidir o nosso futuro. Que pressão esta, descoberta na ansiedade de um terceiro ano mais práctico. O mais engraçado é que, passado o choque, a vontade de definir o que nos pedem cresce juntamente com a contagem decrescente para o final do ano.
Chego de manhã à faculdade e sinto-me numa qualquer prova de atletismo em que os meus companheiros de corrida partiram com 2 anos de avanço, e não, não me sinto assustada, o desejo que me invade é o de correr ainda mais depressa.

Terça-feira, Outubro 18, 2005

Culpada!
Culpada de desprezar o meu blog,
Culpada de não pensar nos que por cá passam há minha procura,
Culpada de andar longe destas andanças ciberneticas,
E para além de tudo isto, contente por andar mais perto de mim.
É verdade, este inicio escolar, misturado com todos os desejos nascidos no passado e ansiosos de futuro, de certa forma obrigaram-me a repensar - afinal que ando eu aqui a fazer? Onde quero chegar?
As respostas tardam, mas fico feliz por ter conseguido chegar às perguntas. O tempo e a vontade trarão o resto.